Levanta-te

"Isso tudo aqui é muito lindo ... Mas não sou assim,
sou o que falo quando não penso pra falar."

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terça-feira, 23 de maio de 2017

"Do convés ao vagão 3207

O fim de tarde era resplandecente ao limiar dos pensamentos. A hora de partir aproximava-se, derradeira, eu ainda estava além dos adeuses e das casas que formavam aquela pequena cidade, longínqua e declarada silenciosa. Teus fantasmas todos se escondiam, pois o humano era a mais terrível solidão do universo. Não éramos nós que temíamos os medos e temores, mas os convalescentes de vidas passadas, que vagavam invisíveis por entre as neblinas dos olhos e no oculto dos pensamentos.

O dia longínquo e chuvoso, frio e gris nos cogitava uma alegria superficialmente invisível (...)

Depois de certos minutos até a estação noite adentro, tudo começava de forma apreensiva. Uma confusa ansiedade de chegar num canto onde se quer eu desejaria realmente chegar, lar do lar?
“O frio permanente daqueles dias, parecia grosseiro demais para quem não sabia sentir”
O tempo sobressaltava lá fora e minha voz silenciada, cabia apenas dentro de mim. Incomodava os olhos inquietos, o frio restava achar a perfeição entre o amor e a razão. Triste, queria sorrir e ser feliz. As gotas cristalinas da chuva pareciam querer destruir o metal que desenhava o teto daquele pesado vagão. Sentei-me ao fundo de forma proposital, e ali me acomodei a vislumbrar as gotas que caíam sobre as portas ainda abertas daquele vagão. Era como a passagem do anonimato do qual eu não queria se quer ser ou fazer parte. O vento chiava a sua passagem e as ferragens antigas das colunas suspeitavam sua velhice. À noite encontrada por seu suspense e por sua noturna serenidade em que cada lado, os montes e outeiros a cobrir cidades antigas.  Escondendo segredos e mistérios que desejosos, queriam ser descobertos. O que era invisível aos olhos se desvendava a cada estação. Os transeuntes perdidos em meio a vida que parecia mais alheia, pois via-se nos olhares o desdém humanos entre os mortais que se encontravam aos enredos de noticiários, o medo de encarar os olhos, o amor perdido estava. E o que era real senão, o espelho que refletia palavras apenas? Olhares desconfiados pelas tecnologias individuais e percorria o silêncio, dando espaço ao artista sobrevivente: Para mim, não havia ninguém vivo, senão eu e o pobre ambulante a vender tua mercadoria de vagão em vagão, ilegalmente, mas tudo quanto vendia, era comprado com sua dignidade. Afinal que ser, roubaria chocolates para vender naquele espaço. Em que a lei subjuga, preferiria que reclamassem da sujeira todo por entre as ruas e os bancos das praças.
A água incolor deslizava de um canto desconhecido aos meus olhos, percorrendo trilhas aos pés despercebidos, formando caminhos em jogos redondos. As paisagens ao nada, surtindo o efeito do movimento em meio a todo o silêncio. Os cabelos grisalhos daquela idade, convocando andanças juvenis, beijos e abraços forçados por entre cantos de portas que subitamente se abriam a cada parada. Ao longe os arvoredos iam ficando para trás e a água que escorria por entre os pés, transformava-se em sangue espesso. Sangue formoso e quente, cálido a escorrer dos frios elétricos.

  “Se quer eu poderia saber mesmo se um corpo mórbido e morto acima da minha cabeça. Mas escorria, antes havia vida. Mas era notável que a morte percorria os pés, sem que percebessem. Perdidos estavam pelos olhares.”

Pude sorrir para o nascimento da vida, pois chegava a hora mais alta. Os trilhos tilintavam e sucumbia o cansaço de carregar os vagões pesados. Sem saber exatamente qual seria o meu lugar, atravessei rios e nascente e longos caminhos a separarem cidades e montes antigos. Uma vaga saudade do que ainda não havia sido, tocou-me á chuva voluntariamente, e ter sido fitado por aqueles olhos, causou-me forte arrepio. Era como o encontro de minha alma com o tal amor, mas passou por mim, como um canto mudo que nos atrai sem nada ter. Pois não era mais preciso a existência daquele ser, que mais me parecia o desejo de minha alma em viver. De todos os outros olhares, aquele tinha me sido o mais real por toda vida. Seus cabelos claros dançaram ao vento, e pude contemplar a realidade que há entre mim sobre a distância do que podemos alcançar e amar pelo declínio que tem a vida. Rompemos não só os muros, mas podemos também detratar a voracidade que possui o ódio as águas correntes que tudo arrasta. Dos passageiros confusos, tornei-me parte daquele defunto do passado, que se quer se levantou para me dar uma explicação ou contar sua história. As luzes altas estavam acesas e espalhadas por toda a cidade, afastaram a escuridão, pois algumas luzes também caminhavam sobre o cimento. Eu não sendo todos certos de que era apenas um solitário, entretanto, em meio ao tudo... Sendo tudo, destroços!

 “È do convés de dentro de nós.
Que alcançamos os vagões longínquos.”